TECNOLOGIA & EDUCAÇÃO

A Sociedade da Informação e suas implicações na Educação

Prof. Msc. Gustavo Cibim Kallajian, CEO Caderno Virtual, Brasil

04 Abril 2017

Em meados da década de 1970 o termo “Sociedade da Informação” começou a ser utilizado para descrever as características da sociedade pós-industrial e ganhou força na década de 1990 com a intensificação do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), soando como uma revolução, centrada na ênfase à informação e alicerçada pelos avanços tecnológicos.

A evolução tecnológica se ramificou por todas as atividades e setores da sociedade, alterando nossa forma de pensar, agir e aprender, refletindo em nossos hábitos e formas de comunicação e, com isso, impulsionou o consumo. Nessa ótica, temos que os avanços tecnológicos produzem cada vez mais produtos e processos que visam à manipulação da informação digitalizada e imaterial. São computadores, telefones celulares, aparelhos de televisão digital e uma infinidade de periféricos que permitem a conversão, em mão dupla, de uma quantidade inimaginável de dados e informações para a forma digital, além de soluções para o seu armazenamento, processamento e compartilhamento.

Mas até que ponto a quantidade significa qualidade? É exatamente nesse aspecto que se constitui grande parte do trabalho dos estudiosos dessa nova sociedade. A relação da tecnologia com um novo modo de ser e de conviver com a geração de produtos é abordada por Kenski:

“A necessidade de expressar sentimentos e opiniões e de registrar experiências e direitos nos acompanha desde tempos remotos. Para viabilizar a comunicação entre os seus semelhantes, o homem criou um tipo especial de tecnologia, a “tecnologia da inteligência”, como é chamada por alguns autores. A base da tecnologia da inteligência é imaterial, ou seja, ela não existe como máquina, mas como linguagem. Para que essa linguagem pudesse ser utilizada em diferentes tempos e espaços, foram desenvolvidos inúmeros processos e produtos.” (KENSKI, 2009, p. 27).

Em seu livro Sociedade em Rede, Manoel Castells (2007) analisa os entrelaces entre tecnologia e sociedade e as transformações históricas que essa simbiose vem conduzindo. Segundo o autor, a tecnologia é a sociedade e a mesma não pode ser entendida sem suas ferramentas tecnológicas, porém nem a tecnologia determina a sociedade ou esta direciona a transformação tecnológica, visto que muitos outros fatores, como a criatividade e a iniciativa empreendedora, impulsionam esse processo.

Nessa nova sociedade, as tecnologias alicerçam fenômenos de amplitude global, com influência direta na economia e na produtividade. Castells (2007, p. 119) retrata o surgimento de uma nova economia informacional, funcionando em rede, com alcance global:

Uma nova economia surgiu em escala global no último quartel do século XX. Chamo-a de informacional, global e em rede para identificar suas características fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente à informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. É rede porque, nas novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de interação entre redes empresariais. Essa nova economia surgiu no último quartel do século XX porque a revolução da tecnologia da informação forneceu a base material indispensável para sua criação.

O domínio da informação passou a ser um instrumento de poder e de aumento da produtividade. Dominando as informações, uma empresa consegue hoje reduzir seus custos, conhecer melhor seus concorrentes e o mercado em que atua. De forma similar, pessoas podem buscar esse domínio para progredir ou, em alguns casos, simplesmente se manter no mercado de trabalho. Estudos mostram que toda inovação tecnológica precisa de um tempo para ser totalmente incorporada pela sociedade e interferir substancialmente no aumenta da produtividade.

Primeiramente, os historiadores econômicos afirmam que uma considerável defasagem de tempo entre a inovação tecnológica e a produtividade econômica é característica das revoluções tecnológicas passadas. Por exemplo, Paul David, analisando a difusão do motor elétrico, mostrou que, embora tivesse sido introduzido entre 1880-90, seu impacto real na produtividade teve que esperar até a década de 1920 deste século. Para que as novas descobertas tecnológicas possam difundir-se por toda a economia e, dessa forma, intensificar o crescimento da produtividade a taxas observáveis, a cultura e as instituições da sociedade, bem como as empresas e os fatores que interagem no processo produtivo precisam passar por mudanças substanciais. Essa afirmação genérica é bastante apropriada no caso de uma revolução tecnológica centralizada em conhecimentos e informação, incorporada em operações de processamento de símbolos necessariamente ligados à cultura da sociedade e à educação/qualificação de seu povo (CASTELLS, 2007, p. 127).

Evocando o conceito de paradigma tecnológico elaborado por Carlota Perez, Christopher Freeman e Giovammi Dosi, adaptado da análise clássica das revoluções científicas feitas por Khun, Castells (2007, p. 108) destaca três características que representam a base material da sociedade da informação:

A primeira característica do novo paradigma é que a informação é sua matéria-prima: são tecnologias para agir sobre a informação, não apenas informação para agir sobre a tecnologia, como foi o caso das tecnologias anteriores.

O segundo aspecto refere-se à penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias. Como a informação é uma parte integral de toda atividade humana, todos os processos de nossa existência individual e coletiva são diretamente modelados (embora, com certeza, não determinados) pelo novo meio tecnológico.

A terceira característica refere-se à lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações, usando essas novas tecnologias da informação.

 

Com a tendência à democratização da informação através das redes, sobretudo da internet, temos a reprodução desse paradigma. Todo o conhecimento humano, na medida em que é convertido para a forma digital, se transforma em matéria-prima para a produção científica e tecnológica (primeiro paradigma). Nossos hábitos e ações são delineados pelas novas tecnologias (segundo paradigma) e, por fim, nossas relações pessoais, interpessoais, comerciais, educacionais e de trabalho também são remodeladas a essa nova cultura de comunicação em redes (terceiro paradigma).

Mas afinal, quais são suas reais implicações na educação? É nesse tema que se concentram os esforços de muitos educadores e pesquisadores.

Embalado pela expansão da indústria e, consequentemente, do capitalismo, vimos surgir a ideia da escola nova, ou escola progressiva (TEIXEIRA, 1968), preocupada com o excesso de tecnicismo talhado nas salas de aula das escolas tradicionais. Segundo esse movimento, a educação deveria formar indivíduos preparados para viver em uma civilização em constante mudança. A educação, pautada em fórmulas pré-estabelecidas, que tinham por objetivo a criação de homens-máquina, deveria ser substituída por uma metodologia pautada na experiência e na cidadania. Enfim, a escola progressista tinha como desafio formar homens independentes e responsáveis pelo seu próprio desenvolvimento e o da sociedade em que vivem. Já no final do século XX, com o avanço da ciência e da tecnologia, os meios de comunicação e transporte começaram a propiciar mais mudanças na sociedade e nos meios de produção. Dessa vez, a abrangência das transformações extrapolava os limites de tempo e espaço e, mais uma vez, a escola era desafiada a se adaptar a esse novo contexto.

“Antes de mais nada, esclareçamos que não são as escolas as responsáveis pelas transformações do espírito da sociedade.  As escolas são como os romancistas, também acusadas de corromperem a sociedade. Elas, como eles, refletem, tão somente, o que já vai pela própria sociedade. A teoria dos educadores busca ajustar a escola às necessidades dessas transformações, procurando retificá-las e harmonizá-las mutuamente.” (TEIXEIRA, 1968).

Atualmente vivemos um cenário absolutamente desafiador para a chamada “escola tradicional”, principalmente para os professores que, a exemplo do que acontece com inumeras outras profissões, teve sua essência questionada e “desatomizada”, derivando-se em conteudistas, tutores, monitores, ilustradores, apresentadores, palestrantes, consultores, pesquisadores, compiladores de conteúdo, webdesigners e diversos outros profissionais que, juntos, formam uma equipe multidisciplinar indispensável para promover o ensino e a aprendizagem utilizando todo o potencial promovido pela tecnologia e pela exponencial digitalização de informações que, pelo visto, não tem prazo para acabar…

Mas isso é assunto para muitos outros posts!

Referências:

CASTELLS, M. A sociedade em rede. Rio: Paz e Terra, 1999. (2007). V. 1 e 2.

KENSKI, V. M. Educação e Tecnologias: O novo ritmo da informação. Campinas, SP: Papirus, 2009.

TEIXEIRA, A. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação da escola. 5ªed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1968.

Prof. Msc. Gustavo Cibim Kallajian

Prof. Msc. Gustavo Cibim Kallajian

CEO da Caderno Virtual

Mestre em Educação, especialista em Informática na Educação e graduado em Análise de Sistemas.

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